cotidiano

dentro do ônibus sentei à frente de duas senhoras,
enquanto uma delas terminava um assunto e já
começava outro dizendo que uma conhecida
de ambas - aquela mesma - havia morrido numa
situação bastante violenta há alguns meses e ainda que
as duas estivessem atrás de mim pude notar a que ouvia
colocando a mão sobre a boca e proclamando pelo
Senhor ao dizer “me falta palavras" e um silêncio que
sobrava ao fim.
duas paradas seguintes desci e na rua imaginava
aquela senhora ao longo daquele dia, chegar
em casa colocar as sacolas sobre a mesa,
as plantas precisando de água, preparar alguma
refeição com filhos, possíveis netos à volta, numa
noite não tão quieta pois dividiria a atenção com
as vozes da tevê; e lembrar de suas mãos sobre a boca
e saber que as palavras lhe faltaram
num instante daquele dia.

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